Num momento em que o sul de Moçambique ainda lambe as feridas das piores inundações dos últimos anos, o Gabinete Parlamentar da Assembleia da República foi ao terreno e voltou com uma mensagem clara: a presença da Primeira-Dama, Gueta Selemane Chapo, fez diferença.

O reconhecimento foi expresso durante um encontro de trabalho entre o Gabinete Parlamentar e a equipa liderada por Maria Marta, presidente da estrutura técnica. O tom não foi o do protocolo habitual. Foi o de quem viu, com os próprios olhos, o que acontece quando o poder desce das cadeiras e vai ao encontro das pessoas.

O que as cheias de 2026 deixaram para trás

Para perceber o peso do gesto, é preciso primeiro entender a dimensão do desastre. As inundações que varreram Moçambique entre Dezembro de 2025 e Janeiro de 2026 causaram pelo menos 103 mortes, afectaram cerca de 173 mil pessoas e destruíram completamente mais de 1.160 casas. A situação foi classificada pelas autoridades como a pior época chuvosa dos últimos anos.

A província de Gaza foi a mais castigada. Cerca de 40% do território provincial ficou submerso, enquanto 152 quilómetros de estradas classificadas foram totalmente destruídos e mais de 3.000 quilómetros apresentaram danos significativos.Em muitos distritos, chegar às famílias isoladas era — e ainda é — uma operação de resgate, não de distribuição.

O balanço global é pesado. Desde Outubro de 2025, as cheias e fenómenos associados mataram 262 pessoas, destruíram parcialmente 15.330 casas, arrasaram totalmente outras 6.181 e inundaram quase 184 mil habitações. Mais de 720 escolas e 302 unidades de saúde foram afectadas.No campo, 555.040 hectares de áreas agrícolas foram atingidos, dos quais 288.016 dados como perdidos, afectando 365.784 agricultores.

É neste contexto que a actuação da Primeira-Dama ganhou ainda mais visibilidade.

"Ela esteve lá, deu o ombro"

Maria Marta não usou linguagem diplomática para descrever o que aconteceu em Gaza. Disse, simplesmente, que a Primeira-Dama "esteve a apoiar as populações, esteve a dar o ombro àquelas populações que estão sofrendo neste momento". Palavras simples, mas que descrevem algo que raramente se vê: uma figura do mais alto escalão do Estado a trabalhar lado a lado com as deputadas, directamente junto às famílias deslocadas.

O Gabinete da Mulher Parlamentar foi convidado pela Esposa do Chefe de Estado a integrar a missão a Gaza — e esse convite, segundo Maria Marta, foi muito mais do que uma formalidade. Significou mãos adicionais no terreno, mais olhos sobre as necessidades reais das populações e, acima de tudo, um sinal de que a resposta ao desastre não seria deixada apenas nas mãos dos técnicos.

"Queremos enaltecer o convite que a Primeira-Dama fez ao Gabinete da Mulher Parlamentar na sua deslocação à província de Gaza, em apoio às vítimas das cheias", afirmou a presidente, sublinhando o impacto prático desta sinergia entre instituições.

Colaboração interinstitucional: o modelo que funciona

Neste tipo de crise, a fragmentação de esforços é um dos maiores inimigos da resposta eficaz. Quando cada instituição trabalha no seu próprio eixo, as lacunas multiplicam-se — e são sempre as populações mais vulneráveis que ficam entre elas.

O que o Gabinete Parlamentar descreveu foi precisamente o oposto disso. A presidente da estrutura sublinhou que "a união de esforços tem sido determinante para mitigar o sofrimento das comunidades atingidas" e que a presença estatal articulada com o Gabinete da Primeira-Dama sustenta a eficácia das operações de socorro nas zonas mais críticas.

Isto não é retórica. O Governo moçambicano avaliou em 644 milhões de dólares as infraestruturas destruídas, e o plano de reconstrução aprovado em Conselho de Ministros assenta precisamente na coordenação interinstitucional e na gestão integrada do risco climático.Sem essa articulação no terreno — que começa por gestos como o da Primeira-Dama — qualquer plano de papel corre o risco de ficar no papel.

Ninguém pode ficar para trás

A mensagem central do encontro foi clara: a missão não termina com a entrega de bens de primeira necessidade. Termina — ou melhor, não termina — quando cada pessoa deslocada se sentir vista, apoiada e com perspectiva de futuro.

Maria Marta foi directa: o objectivo é "fazer tudo para que todos se sintam acomodados, todos se sintam apoiados e que nenhuma pessoa fique para trás". Esta orientação alinha-se com o que a OMS classificou como Emergência de Grau 2, mobilizando recursos acelerados e reforçando a coordenação para proteger a saúde das populações afectadas nas províncias de Gaza, Maputo e Cidade de Maputo.

A inclusão das mulheres parlamentares neste esforço também não é acessória. Em contextos de desastre, as mulheres especialmente as chefes de família — são frequentemente as mais afectadas e as últimas a receber atenção institucional. Ter deputadas no terreno, a ouvir e a reportar, muda esse equilíbrio.

Um reconhecimento que obriga

No encerramento do encontro, Maria Marta reiterou o agradecimento ao trabalho da Primeira-Dama: "Agradecer mais uma vez à Primeira-Dama do país por tudo que tem feito para o povo moçambicano." Mas este tipo de reconhecimento público não é apenas uma cortesia — é também uma forma de responsabilização.

Moçambique enfrenta cheias todos os anos. O próprio Ministro dos Transportes admitiu que "a chuva vai cair todos os anos" e que é necessário planificar de forma mais definitiva, deslocando populações para zonas seguras e construindo infraestruturas mais resilientes. A questão não é se virão mais cheias. É se o país estará institucionalmente, socialmente melhor preparado para as enfrentar.

O que aconteceu em Gaza, com o Gabinete Parlamentar e a Primeira-Dama a trabalhar em conjunto, é um modelo que merece continuar — e ser replicado.